|
|
OS
VÁRIOS ‘SONROTNOC’ DA CANÇÃO
BRASILEIRA...
Você já parou
para pensar no que está acontecendo com a canção?
Refiro-me à Canção Popular Brasileira? Você por
acaso já se questionou sobre as transformações
que ela tem passado nos últimos tempos?
Se você faz parte daquela geração como eu, ou anterior a
ela, de quando a canção brasileira tinha os moldes, os contornos
daquele formato pós-festivais anos 60 onde o trinômio melodia/harmonia/letra
eram cuidadosamente lapidados pelos compositores, provavelmente, ao se deparar
com a produção atual de canções experimente uma estranha
sensação de... esvaziamento, diluição, ou sabe-se
lá o quê.
Por quê? Será que não estamos conseguindo acompanhar esta
nova leva da produção autoral brasileira? Será que as nossas
referências estéticas às quais sempre acreditamos podermos
nos gabar (afinal referenciais como Chico Buarque, Caetano, Djavan etc. não é pouca
coisa) de nada valem para compreender o contexto atual da criação
brasileira? Ou será que estamos enxergando um problema onde não
tem, ou talvez entendendo ou abordando a questão pelo canal diverso?
Faz um tempo, Chico Buarque expôs em uma entrevista para um Jornal de circulação
nacional que o formato de canção o qual ele partilhava, inspirado
nos moldes composicionais de Tom Jobim, estava fadado ao total desaparecimento,
porém ele, Chico, por fazer parte desta geração e ter convivido
e produzido com Tom, se mantinha e ainda produzia dentro deste perfil. Indo além,
ao referir-se à temática social do Rap brasileiro, expressou total
respeito e admiração por estes compositores dentre várias
razões - suas criações serem fruto de um viver ‘in
loco’, e por serem escutadas e consumidas por uma faixa de audiência
que ele Chico, jamais atingiu e provavelmente jamais atingirá.
No capítulo Simultaneidades do seu excelente O SOM E O SENTIDO, Zé Miguel
Wisnik alerta para a reiteração do pulso e do caráter modal
presentes nas criações mais recentes, assinalando uma espécie
de retorno ao “tribalismo”, porém com contornos urbanos e
eletrônicos – o pulso e a defasagem do pulso:” a música
de concerto contemporânea explorou conscientemente dimensões do
tempo que contestam a escuta linear, negam a repetição e questionam
o pulso rítmico. A massa das músicas de massa marca o pulso rítmico,
a repetição e apela à escuta linear. Uma contesta o tom
e o pulso, outra repete o tom e o pulso.”
Silviano Santiago, em entrevista para o livro A MPB EM DISCUSSÃO organizado
por Santuza Cambraia Naves, Frederico Oliveira Coelho e Tatiana Bacal, expôs
de forma significativa que... “a arte de hoje em dia sempre apresenta o
mundo a partir de um quadro, e esse quadro é o enquanto “... ou
seja, o momento que vivemos hoje não se referencia, não se apóia
no antes, durante ou depois, e sim, vivemos o momento do enquanto. Em síntese,
para entendermos o momento que vivemos hoje e as suas respectivas criações
devemos repensar nossos parâmetros avaliativos de tempo - o ontem já não
vale como referência para compreender o hoje. Pós – modernidade?
Quem sabe... Ou será que a linearidade temporal perceptível em
outros gêneros, por exemplo o erudito, não vale como parâmetro
avaliativo para pensar o tempo na canção popular?
Luiz Tatit em artigo para a revista Cult explicou que a Canção
nunca andou tão bem obrigado. Explica: “a existência do Rap
e outros gêneros atuais só confirma a vitalidade da canção.
Ou seja, canção não é gênero, mas sim uma classe
de linguagem que coexiste com a música, a literatura, as artes plásticas,
a história em quadrinhos, a dança, etc. é tudo aquilo que
se canta com inflexão melódica (ou entoativa) e letra. Não
importa a configuração que a moda lhe atribua ao longo do tempo.”
Nesta altura proponho ao leitor que chegou até aqui uma pequena incursão
auditiva. Escute e reflita sobre duas canções que falam da figura
feminina brasileira como fonte de inspiração – BEATRIZ de
Chico Buarque e Edu Lobo e um dos sucessos do Funk Carioca BOLA DE FOGO( não
sei se é exatamente este o título da canção). Uma é tonal
e a outra, modal. Uma é rica em arranjos, outra é simplificadamente
apoiada numa base eletrônica. Uma se apóia num fluxo melódico,
outra, no fluxo da fala. Ambas refletem realidades sociais e estéticas
distintas. Pergunto: estas canções são mesmos enquantos
de brasis diferentes ou diferentes enquantos de mesmos brasis?
PS: Esqueça o seu gosto pessoal
|
|
 |