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A conquyista
Olhou
por uma fresta da parede do velho barraco e não viu
nada. O corpo adrenalizado. O trajeto por trás do morro,
com o mato cerrado e as enormes pedras lisas dificultavam a
subida. Parecia íngreme demais, impossível.
Mas
como dizia o Víni:
– Impossível não existe, leva um tempo para se tornar possível.
Levou dois dias. Foi difícil. O lugar tava limpo. O puto tinha razão.
Daria o golpe fatal como uma ave rapinêra.
O Vini precisava sabê!
Pegou o celular.
– Aí meu irmão! Adivinha onde eu to?
Víni respondeu:
–
No topo! Foi a Mamãe que te deu coragem!
Víni é rico mas não é cagão, bate bem. O pai
dele era político, agora tem uma frota de caminhões. O Vini só cheira
pó, fuma maconha e toma bala. Mas gosta mesmo é de chupa pau de
bandido.
Uma semana depois Ele reuniu todo o bando. Disse que ia tomá a boca do
Mingau, Patrão do outro pico. Só não contou que o plano
era do Víni.
Naquele dia apresentô Mamãe pro bando.
Foi uma festa!
Víni gritava – QUERO VÊ MAMÃE ARPEJÁ. Todo mundo
doido. Víni tava realizado. E Ele apaixonado pela Mamãe. Poucos
dias depois a primeira farra, carro forte, dois mortos. Então Ele me chamou.
– Toma – me deu três mil reais, Víni apareceu, eles
se olharam, me deu um tapa na cara e falou – é pra tua mãe,
que eu já tenho a minha - daquela dinheirama ele comprou só máquina
boa, fudida mesmo, e deu pro bando. A coisa ia sê grossa, quieta, planejada.
Daí choveu, muito. Achei que iam abortá. Na terça-feira,
Ele mandou me chamá:
–
Quantos anos tu tá?
–
Treze.
–
Tá bom. Tu já é home dus meu, do coração.
Fica aqui com o Mijão e os primo dele. Nos vâmo fazê o que
tem que sê feito. Pegá os puto tudo pelado e doido! Aqui tem o que
você precisa – era uma caixa com armas e munição – toma
conta.
O Víni tava muito loco dizendo “VAMO TOMÁ A PORRA DO MINGAU!”
Lembrei que o Mijão falou:
–
Aquele puto, filhinho de papai do Víni, tá fazendo de tudo pra
virá mulherzinha do cara. Qué se a rainha da boca, pau no cu.
Dito e feito. Subiu Ele, o Víni e mais treze home, levaram dois dias e
uma noite. Chegaram, descansaram um pouco depois atacaram, foi moleza, apesar
de tudo dançou o Pisca, Zé Gringo, o Sarará Catimba e Ele.
Com o Mingau e seus parceiro morto, o Víni e Ele ficaram sozinhos no barraco
pros os outros darem uma geral. Quando, sem Ele percebê o Víni pegou
a Mamãe e arpejou. Uma rajada e fudeu. Depois o Víni se deu como
morto com um defunto de aluguel. Suicídio por afogamento. Saiu no jornal
que no bolso do Víni tinha um papel escrito: “Os arpejos de mamãe
me levaram ao suicídio”.
A mãe do Víni disse no jornal que ele era doente. Ela é pianista
clássica. O pai disse que a juventude tá perdida.
Víni virou Vaní, virou mulher. Dona das duas boca. Eu sô o
home dela agora. Eu sô home, só transo com mulher. Também
tomo conta da Mamãe, uma metralhadora de ultima geração,
do exército israelita, que o Víni tinha dado pra Ele, aquele veado!
Ela me contô tudo. Eu sô o Bitu. E pra Vaní nada é impossível.
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